9 de maio de 2010

God of Warhol



Motivado pela tirinha (supracolada) do Saturday Morning Breakfast Cereal (e por cutucões de amigos falando da mesma), passei uns dias pensando em como escrever sobre videogames e arte. Pois bem. Nesse mundo de arte contemporânea maravilhoso, encantador e cheio de unicórnios, arcos-íris, latinhas de cocô e não-coisas, temos o eterno arranca-rabo OH DEUSES O QUE É ARTE?

Não vou definir nada aqui. Como bom lorde inglês (que não sou), vou rodear o assunto pelas bordas e deixar que você se vire pra tirar sua própria conclusão. Depois vou tomar chá.

Videogames são legais. Eu adoro jogar, ainda que meu repertório GAMÍSTICO seja relativamente pobre. Tem os jogos-farofa-blockbuster da série Final Fantasy, os farofa-sanguinolentos como God of War e os farofa-doentios como Katamari Damacy. Não, “farofa” não é uma categoria de jogos (espero). Só digo isso porque são jogos pra se divertir, ir lá, matar monstros, andar pelo cenário, quebrar coisas, amontoar coisas, ganhar pontos, decapitar a Medusa, reclamar da tradução ruim ou do roteiro furado e sem noção (Devil May Cry, estou olhando pra você).


Katamari Damacy: sua mãe é tão gorda que tem um campo gravitacional só dela.


Vamos pegar God of War como exemplo, aqui. Eu gosto dele. É legal. Até meu pai, que mal sabe onde ficam os botões do controle, adora, e começou a jogar videogame graças à explosão de sangue e vísceras e pedaços e sangue e vísceras que o Kratos deixa pelo caminho. Ele joga por jogar, não faz os combos direito, se perde quando vai apertar os botões, mas é raro eu ver ele se divertir tanto. E ele se diverte. Eu comecei a jogar a série – pasme, sim, é a mais pura nerdice – por causa da mitologia grega que existe no pano de fundo.

Se bem que tudo fica no pano de fundo, que fica sujo de tanto sangue que tem no jogo. Já nas primeiras cenas de God of War 1, eu (continue pasmo, por favor) ficava analisando a arquitetura dos lugares e vendo como tudo aquilo era errado e anacrônico e faria minha professora de História da Arte ter um colapso nervoso no meio de fustes e frisos. Mas ei, é um jogo. Acasale-se a história! (gostou da substituição da palavra com F? Eu sim!).

God of War é lindo. As cenas de ação parecem saídas de filmes (mas não são cinema) e as atuações dos personagens são dignas de uma novela das 8 (do SBT, e olhe lá). Em termos de arte, a fotografia e a trilha sonora são os pontos altos, especialmente esta última, na minha opinião. Corais cantando em grego, música instrumental e o caramba, é uma coisa que não se vê em muitos lugares, e há uns anos atrás esse tipo de detalhe era completamente secundário em videogames. Hoje em dia, existem até festivais só de trilhas sonoras de jogos (e eu aceito convites pro VGL, obrigado).


Caminho das Grécias, com Kratos Dolabella (what?).


Estou falando sem chegar a lugar algum. Pois bem, vou fazer uma analogia aqui pra falar de outro jogo. Com HQs. Sabe aquelas histórias em quadrinho de super-herois, da Marvel e da DC? Então, são histórias que pertencem às editoras, que contratam os desenhistas, os roteiristas e o povo todo que vai trabalhar em cada edição. Pacotes fechados, carteira assinada, cada um na sua e beleza. Agora pega, por exemplo, Watchmen ou Sandman (sim, meu repertório de HQs também é pequeno). Essas últimas são histórias dos autores. Tem todo um time de trabalho, assim como as outras HQs, mas quem dita os rumos não é o editor-chefe, é primeiramente o autor, o cara que escreve e pensa em tudo do começo ao fim.

Não vou ser ingênuo e dizer que não tem pitacos do editor aqui e ali, porque é um trabalho, afinal. Mas acho que deu pra entender. E sim, eu estou falando da minha opinião aqui: produções autorais, por seu caráter independente, são sim, “mais arte” que produções unicamente editoriais, feitas em larga escala, etc. Me crucifiquem, eu sou mau (mentira) e descendente de alemães (verdade, mas os que fugiram da guerra, não os psicopatas xenófobos).

Assim como histórias em quadrinhos, existem poucos videogames autorais. Tanto que os únicos que me vêm à mente agora são Ico e Shadow of the Colossus, de Playstation 2. Muita gente não conhece, muitos dos que conhecem acham um pé no saco, mas quem aproveita o que esses jogos têm pra oferecer sabe que são experiências únicas. Tambores para a Frase de Efeito: assim como a Arte.

Não vou falar com detalhes dos dois jogos aqui porque o texto já está longo demais. Mas resumindo: em Ico, o jogador controla um menino, que nasceu com chifres e, graças à essa maldição, foi trancado em uma fortaleza pelos habitantes de uma vila. Na fortaleza, o menino, Ico, encontra-se com uma garota estranha chamada Yorda, que tem o poder de abrir portas mágicas, intransponíveis de outra maneira. A jogada: Yorda não atravessa a maioria dos lugares, e o jogador tem que ficar caçando maneiras dela poder atravessar, enquanto Ico se esgueira por tudo que é buraco. Ela é distraída, fica perdida no cenário, e é preciso chamá-la toda hora, ficar segurando pela mão, etc. Só tem os dois, no jogo todo. E a fortaleza. E uns monstrinhos que vivem querendo sequestrar a menina. Os cenários são gigantescos e não tem música. Nenhuma. Só se ouve o barulho do vento, do começo ao fim.


- Que chifres grandes você tem!
- É pra se ferrar melhor.


O jogo tem um poder de imersão incrível. Ora ou outra eu me via xingando a Yorda, ou reclamando dela (“Vaca! Corre, sua derpa! Fiadamãe!”, etc). Porém, em um pedaço da história, Ico fica sem ela.

É aterrorizante. É horrível. Depois de horas escoltando a menina por aquele lugar gigante, a perspectiva de não saber o que está se passando com ela é assustadora. Em nenhum jogo eu senti tal nível de apego aos personagens. E olhe bem o que eu falei aqui: “eu senti”. Pode não acontecer com você.

Ico é um jogo original. Simples, sem música, longo e imersivo. Shadow of the Colossus é assim, também, e é do mesmo "autor", Fumito Ueda (ainda que SoTC tenha algumas músicas, o que predomina é o silêncio). O que diferencia os dois de GoW? O fato de serem autorais. Não existem jogos sequer parecidos com as propostas que esses dois oferecem. God of War é legal, cheio de ação, músicas maravilhosas, um orçamento que poderia (mesmo) comprar uma cidade pequena (Areiópolis tá meio abandonada, alguém se interessa?), mas não tem absolutamente nada de novo. Só são muitos elementos bacanas, já vistos em outros lugares, que se juntaram ali. Isso faz dele um jogo ruim? De maneira alguma.


Só tem 16 desses no jogo. E você tem que acabar com eles. E com a mãe deles.


Só que, e isso que vou dizer também se refere à eterna guerra de consoles, hoje em dia se vê poucos jogos novos. Não que poucos jogos sejam lançados, mas poucas maneiras novas de jogar são criadas. O mesmíssimo acontece com a arte de hoje. E a mesma resistência por parte dos consumidores/espectadores acontece. Ainda temos telas, ainda temos esculturas, mas mostre uma videoarte ou uma instalação com várias mídias interativas para um reles mortal (oh!) e peça pra ele te explicar se aquilo é arte.

Aí vem a Nintendo com um console que faz os jogadores terem que ficar de pé (blasfêmia!), mover o corpo todo (heresia!) e não apresenta gráficos revolucionários de última geração (queimem o Miyamoto, ele transforma as pessoas em salamandras!). Algumas pessoas adoram e acham que é a vinda do messias, enquanto grande parte vira a cara e despreza, preferindo as mesmas coisas de sempre, apenas requentadas.

Gente, eu fiz relação de videogame com arte, tô ficando bom nisso.

4 de maio de 2010

Abstração e Obstrução ou “Como Fazer o Cérebro Aceitar o Que Não Faz Sentido?”

Uma das missões colocadas para minha pessoa como professora de Arte (ou Artes? Ou Educação Artística? Ou não) é salientar períodos de produção como Arte Moderna, Arte Contemporânea e situar certos movimentos artísticos como o Cubismo, Expressionismo e os ismos todos. Parece uma tarefa fácil uma vez que metade dos alunos decora e a outra cola... só parece.

Saindo um pouco da sala de aula, a maioria da população comum ao ser questionada sobre o que é Arte Abstrata vai sacudir os ombros e dizer num tom de voz que sugere que ela não tem nada a ver com isso:
_São aqueles quadros que não tem nada.
Ou ainda
_É aquelas coisas sem sentido que não quer dizer nada.
E tem mais!
_É aquilo que o macaco da novela faz melhor que a gente.

“Mas afinal” queremos saber “que diabos é Arte Abstrata?”. Como boa adepta da terapia de choque eu respondo para qualquer um; aluno ou transeunte, amigo, inimigo, protestante ou seguidor da KKK, com Pollock.



Pollock, J. Full Fathom Five, 1947. Oil on canvas with nails, tacks,
buttons, coins, cigarettes, and lasers 129 x 76.5 cm.

Isso!Isso, fofo! O ápice do Expressionismo Abstrato, action painting, drip painting ou whatever como você queira chamar aquele torvelinho pictórico que esse cidadão estadounidense fazia cada vez que se via diante de uma superfície em branco... aquele ápice está ali por minha conta e risco.

Jackson Pollock nasceu alguns anos antes da primeira guerra e morreu poucos anos depois da segunda, alcoólatra, fumante, psicologicamente instável, voilá! Só podia ser artista... Passou por uma fase figurativa influenciada por teosofias, arquétipos da psique e muito de tudo um pouco nesse sentido até culminar nas tais expressionadas obras abstratas durante quase uma década antes do final frenético de sua vida artística enfiando o carro numa árvore enquanto dirigia bêbado (não tentem isso em casa, crianças).

Estou falando de Pollock porque não vejo outra maneira de falar sobre coisas que nosso cérebro não aceita, ou pelo menos o lado esquerdo dele.



Obviamente existem coisas que nenhum dos lados aceita...

Saiba mais:
Você tem dois “cérebros”: um esquerdo e um direito. Os estudiosos do cérebro atualmente sabem que o cérebro esquerdo é o verbal e racional; ele pensa em série e reduz o raciocínio a números, letras e palavras. Seu cérebro direito é não-verbal e intuitivo; ele pensa em padrões, imagens compostas de “coisas inteiras”, e não compreende reduções, sejam números, letras ou palavras.


BERGLAND, R. The Fabric of Mind. Nova York: Viking Penguin, Inc., 1985, p.1


Arte Abstrata enche o saco porque mexe com o lado esquerdo, ele ‘tá lá na dele, nomeando cousas e relacionando nomes com fatos, alhos com bugalhos e você joga uma coisa totalmente desconexa na frente dele e quer dar atenção a ela, o lado direito tem faniquitos e diz:
_Cara, olha só essas formas e cores, volumes e volteios, olha que massa! Isso é uma anfetamina visual muito heavy!
Ao que o esquerdo responde:
_Velho, sai dessa vida, não tem nada de mais aí, não dá pra distinguir nada nesse lixo! Não tem rostos, não tem pessoas não tem... espera... acho que ali... não, não, foi só impressão minha, vem, vamos pra seção da Renascença, eu quero ver a Mona Lisa.

Acontece que nosso lado direito precisa de tanta atenção quanto o esquerdo, na verdade, nosso cérebro como um todo, muitos de nós tem se esquecido que nossa adaptação evolutiva é... Pensar. Usar a massa cinzenta. A pintura abstrata, assim como o concretismo e seus quadrados que são somente quadrados, quer dizer exatamente o que ela é: uma série de linhas, borrões, manchas e massas pictóricas. Artistas que se aproveitam obscenamente (hmm..) das diferentes texturas dos mais variados tipos de tintas pelo prazer de.
Equilíbrios de cores e formas, riscas e pingos que formam padrões coerentes por si só, sem nomeação real.

Abstracionismo está lá para ser abstraído (Duh, no shit, Sherlock!), dê um momento para o seu cérebro funcionar de outras maneiras que não sejam tão óbvias.

Aliás é divertidíssimo aos professores wannabe, peçam a um aluno na faixa dos 10-15 anos para pintar um sol de verde ou uma floresta de roxo, mesmo que você diga que vai dar zero se eles fizerem outra coisa, alguns simplesmente não aceitam e se incomodam com a idéia, entregando um tranquilizante sol amarelo sobre uma floresta religiosamente verde.

Mas porque raios devo eu deixar meu cérebro sair por aí cutucando coisas que não fazem sentido? Eu não tenho tempo! Trabalho, estudo, tenho 15 filhos pra criar!

Amiga, isso é uma desculpa péssima, pra começo de conversa se você considerar que o cérebro funciona 24 per day/7 a week, em algum momento ele acaba fazendo isso, mas pouca gente percebe.

É quando você está dando aquele barro (com todo o respeito às miladys que não fazem isso, tipo a Xuxa ou a Megan Fox mas eu duvido que elas leiam isso) ou esperando o busão e olha pro chão ou para o azulejo colorido com aquele efeito tenso de blur (porque azulejo de florzinha é tão anos 80), então aos poucos você vê um rosto tomando forma, mas logo ele não está mais lá, e você pára com a idéia porque isso é coisa de gente louca e crianças hiperativas, certo?

PÉÉÉÉ!
Errado.

Isso são seus cérebros brigando pelo controle, fomente esta luta, faça apostas, veja quem ganha. O cérebro esquerdo acaba cedendo, procurando por novas formas para nomear enquanto o direito se deleita com a malha coesa de tinta apenas por ela ser coesa.

No fim das contas Abstração acaba sendo um Nada que incomoda exatamente por ser intrigante de se olhar, acaba sendo Coisas Sem Sentido que nos estimulam visualmente e se bastam nisso, e se o macaco da novela Faz Melhor talvez seja porque ele usa melhor o cérebro do que nós...

21 de abril de 2010

Faniquitos e Rabisquitos

Arte urbana. Pixações, intervenções, grafitti ou muitas vezes puro vandalismo (será?). É a maneira mais fácil e chocante de ser visto e lembrado nas grandes cidades, com paredes cinzas e monótonas, tendo seu cotidiano perturbado por alguma mensagem ou pintura.

Diego Rivera. La Historia de México. Mural no Palácio Nacional do México. 1929.

Esse negócio de pintar nas paredes pra provocar os outros é velho, mas ficou famoso lá por 1930, com os muralistas do México, que usavam as paredes para divulgar mensagens sociais e políticas.

Prossigamos com o resumo da ópera de um CAUSO de alguns dias atrás, acontecido aqui no país tropical. O Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo abriu uma exposição no dia 16, A cidade do homem nu, que relaciona o erótico com o urbano. Um artista plástico, Alexandre Vogler, ia expor uma obra, que já participou de outras mostras, intitulada Fani dark. Buuh.

Alexandre Vogler. Fani dark. Intervenções
anônimas em cartaz de divulgação da Playboy. 2010.

Ma óia que absurdo!

O que aconteceu: a assessoria de imprensa da ex-BBB (o que faz um assessor de ex-BBB?) proibiu a tal obra de ir pro museu porque ela é agressiva e denigre a imagem de Fani.

Não tem como não concordar. Onde já se viu?

Leitura de imagem, para elucidar:

Ela está exposta, indefesa, como se fosse ser atacada por algum maníaco. A pose evidencia uma ancestralidade pura e intocada, representando a virgindade e a inocência da mulher da mais tenra idade. Os dizeres “U-hu! Nova Iguaçu!” representam a ligação da donzela com seu povo, um pedido de socorro desesperado diante da situação terrível em que ela se encontra, clamando por sua gente. O texto logo abaixo, “FANI NA PLAYBOY” é um trocadilho inocente, que mostra as boas intenções da moça, dizendo que ela gosta de brincar com crianças.

Artista malvado. Só porque ela entrou pro BBB, só porque se expôs 24h por dia e depois abriu as pernas pra uma revista fotografá-la de todos os ângulos possíveis, você se achou no direito de denegri-la ao.... ao... wait, o que foi que ele fez, mesmo?

Vogler se justificou. Numa exposição que envolva a cidade e o erotismo inerente na mesma, a idéia de colocar um cartaz que seria rabiscado por quem quer que fosse visitar o espaço não é nada mais lógico. É o mesmo de um tempo atrás, na exposição do MASP "De dentro para fora / De fora para dentro", sobre grafitti e arte de rua, em que os visitantes podiam escrever e desenhar em uma das paredes. Arte urbana, criação coletiva e anônima. Não é pra ser bonito, é pra fazer pensar. É uma intervenção no cotidiano, pombas.

EGO: compêndio de cultura.

Claro que eu estaria sendo imparcial e apoiando o artista se eu não colocasse o lado dela aqui, reportado no EGO (como todos sabemos, o último reduto de sabedoria da internet):

"Em nenhum momento ele me disse que foram interferências feitas por visitantes do museu, nem que esses cartaz já tinha sido exposto no Museu de Arte Contemporânea, de Niterói. Ele enfatizou que a obra era de autoria dele, inclusive as intervenções. Ele não tinha autorização para nada, nem para divulgar a foto que está mostrando".

Claro que Vogler tentou contra-argumentar, explicar o porquê de ter aceito o impedimento e não ter exposto a obra:

“A assessoria da Fani disse que o trabalho não agregava coisas boas à imagem dela, como se ela pudesse autorizar ou não a realização de uma obra de arte".

Ainda bem que o bem e a justiça prevaleceram, porque Fani tinha a razão:

“Já pintei quadros, meu tio e minha mãe também pintam".

Infelizmente, o tio e a mãe de Vogler não pintam.

16 de abril de 2010

Arte Merderna


Oh, o horror. Resolvi falar de arte moderna. Maldita arte moderna. A pedra no sapato de qualquer professor de arte, quando o aluno vê o Abaporu (maldito Abaporu), levanta a mão com um sorriso diabólico na cara e diz “que coisa torta!”. É. Torta. E Tarsila se revira no caixão, obrigado.


Tarsila do Amaral. Abaporu. Óleo sobre tela, 85 x 73cm. 1928.

Comecemos do começo. Pra não dizer que tô falando porcaria (sozinho), vou usar como referência o livro Modernismo, de Charles Harrison, da Cosac & Naify (reclamem com ele).

O que é “moderno”? Não, sua geladeira duplex não é moderna. Nem seu Ray Ban. Muito menos a Lady Gaga.

“Modernização” foram as transformações tecnológicas e culturais que aconteceram na Europa durante e imediatamente após a Revolução Industrial, lá pelo finalziiiinho do século XVIII (isso é um “18”). Hoje em dia, ser moderno significa ser atualizado. Também significava exatamente a mesma coisa no século XIX (isso é um “19”). Olha só que evolução. Super duper!

Claro que isso complica quando a gente fala de arte e os seus –ismos. Uma obra moderna, pra maior parte da humanidade, é qualquer coisa bizarra e que ninguém entenda*, mas que algum cara jura que é arte e pôs na exposição. Aí todo mundo vai com a família feliz na Bienal, olha pra um monte de guarda-chuva pendurado no teto, aponta com o queixo e concorda com o nada, franzindo o cenho e fingindo que entendeu “arte moderna”. Arrã (e não, não é).

Marepe. Cânone. Instalação com 75 guardachuvas na 27ª Bienal de Arte de São Paulo. 2006.



Tipo... oi?


Com tantas mudanças acontecendo na Europa, políticas, econômicas e ideológicas, é claro que os artistas iam seguir a tendência (porque isso é in). Mundo novo, vida nova, yey, arte nova. Eu queria muito citar uma coisa mais curta aqui, mas eu achei esse trechinho do tio Harrison tão legal que resolvi colocar inteiro. Com observações muito phynas:

“[...] o objetivo de ser ‘moderno’ nasceu de maneira característica de uma certa percepção segundo a qual o presente estava sendo indevidamente formado à imagem do passado [que já era out], assim como de uma conseqüente perda de identificação com a tendência dominante da cultura. É razoável pensar que, onde essa perda foi significativa em termos da produção de formas distintas de arte, isso não pode ter sido apenas a experiência de alguns poucos indivíduos socialmente desajustados (ou ‘gênios’) [LOLOLOL], mas deve ter coincidido com alguma mudança maior na auto-imagem de uma parte substancial da sociedade. Se o modernismo foi à época antiacadêmico em suas origens e desenvolvimento, como em geral foi [*risos*], isso não ocorreu simplesmente porque alguns artistas se recusavam a conformar-se aos estilos clássicos [que não tinham updates significativos ou uma nova versão desde o século XVI]. Ocorreu, sim, porque todo o modo de existência em que se realizavam as intuições críticas modernistas era incompatível com o mundo de valores que as academias representavam.” (HARRISON, 2000, p. 6)

“Gênios” também ficou na sua cabeça, né? Pô, que artista é tudo desajustado social a gente sabe, Charles.

A partir da fala aqui do Charles, podemos considerar umas coisinhas. Os caras queriam se livrar do passado. Queriam se ver livres pra pintar do jeito que bem entendiam. 


Pense comigo, leitor querido. Os caras fizeram ISSO aqui:

Paul Cézanne, Banhistas. Óleo sobre tela, 208 x 249cm. 1899-1906.

Depois de uns 500 anos DISSO aqui:

Rogier van der Weyden. Maria Madalena. Óleo sobre madeira, 41 x 34cm. ca. 1430.

Sim, isso é um exagero, necessário para explicar. Não se pintou do mesmo jeito por 500 anos. Mas a pintura não mudava tanto. A maneira de representar as figuras sim: tinha toda a técnica das quatro tartarugas ninjas (às vezes me pergunto se o Michelangelo realmente gostava de pizza), havia os mestres dos países nórdicos, os espanhois e tal; mas as mudanças se resumem à perspectiva, à sombra, o uso da cor, mas nada muito além disso (que fica para um futuro post). Os modernistas transformavam a pintura em pintura pura. Em tinta-sobre-a-tela, não apenas retratos. Em boa parte dos casos, especialmente no começo, ainda era uma representação da realidade, isso eles não negavam. Mas tinha um rompimento com o estilo passado. Agora dava pra ver a marca do pincel, as cores escolhidas por puro gosto ou qualquer coisa aleatória. Havia a marca individual de cada artista.

E não, eles ainda não usavam cocô como tinta. Eu acho.

O modernismo foi um valor, não um movimento. De fato, houve muitos deles, um pior que o outro na sua corrida armamentista de lançar moda primeiro (moda, moderno, hã, hã?). Um dos que conseguiram mais fãs (eu incluso) foi o Impressionismo, conhecido galacticamente por meio do Monet.

Claude Monet. Mulher com sombrinha (Camille e Jean Monet). Óleo sobre tela, 100 x 81cm, 1875.

Moneeeeeeeeeeet! ~

Se parar pra pensar, olhar de perto, as coisas que o Monet fazia eram só manchas na tela. Rápidas e precisas. O Impressionismo roots praticamente não tinha esboço. Era tudo feito na hora, ao ar livre, com o objetivo de explorar o efeito da luz nas coisas. Cabe um parêntese aqui: impressionistas foram os primeiros a sair do ateliê pra pintar. Depois de SÉCULOS de pintura. Antes era tudo feito a partir de esboços, desenhos ou de memória. Tá vendo a dimensão da coisa? Eles eram demais! *fanboy*

Isso me fez ter uma idéia estranha agora. Na época, quando os artistas modernos abriam suas exposições, o povo ficava chocado e tinha ataque de pelanca. Onde já se viu, manchas de pincel, coisas mal acabadas, depois de MILÊNIOS dos cânones de Da Vinci? Hoje em dia, é difícil encontrar alguém que não goste do trabalho deles. Monet poderia ser endeusado por praticamente qualquer um que goste de pintura.

Será que o mesmo não acontece com os artistas contemporâneos?


Edith Derdyk. Extensão. Plástico, cordonet. Dimensões variáveis,1994-95.

Quer dizer... depois de quase um século que as pessoas realmente passaram a apreciar e dar valor para as obras daquele período. E todo mundo, hoje, só repudia e fala mal da arte atual. Será que não está acontecendo a mesma coisa?


Stefani Joanne Angelina Germanotta. Rena Vitruviana Bipolar.
Coelho mutante sobre cabeça (intervenção). Dimensões indefinidas, 2010.


Esse tema ainda vai render muitos posts aqui.
Não puxei saco do Monet o suficiente.

10 de abril de 2010

A Coisa e a não-Coisa

Éramos todos felizes com A Última Ceia, de Da Vinci, ou com A Criação do Homem, de Michelangelo, ainda que inconformados com o tamanho do pipi do Adão. A gente até dá um desconto praquelas coisas que o El Greco fazia, mas só porque tem coisas dele nos livros de arte e temos que estudar de um jeito ou de outro.

Aí chega um cara e me vem com isso:

Max Bill. Harmonia das Colunas. Litografia em quatro matrizes. 1979.

Arte concreta, leitor; leitor, arte concreta.

Antes que me taquem pedras, vamos começar do começo. Isso aí é uma obra de arte (acredite!). Com calma. Assim. O autor dessa maravilha, um suíço que teve a infelicidade de ter seu trabalho espalhado na América do Sul, foi praticamente o responsável por trazer esse tipo de modernice pra cá. A arte concreta era uma nova maneira de encarar a arte e teve seus grupos e movimentos, mas antes disso, a idéia geral da coisa era “ei, vivemos num mundo diferente, por que é que vamos ficar venerando essas pinturas out do passado, cacete?”. Não era arte abstrata. A abstração é a ausência de figuração (a representação de coisas). A arte concreta era... não-abstrata, segundo o tio Van Doesburg (1883-1931), um dos padroeiros do negócio.

Péra, eu explico.

Figuração é a representação das coisas. Abstração é a ausência de figuração. A arte concreta, a não-abstração, representava a si própria. Pontos, linhas, formas e cores não significavam nada além de si próprios. Então quando alguém olha pra um quadrado azul num fundo branco e diz “que merda, é só um quadrado azul!”, BINGO, acabou de entender a ideia da coisa.

Stefani Joanne Angelina Germanotta. Não-pessoa com não-roupa.
Assemblage (capas de botijão de gás sobre manequim orgânico). 2010.

Eu disse que era simples de entender.

Esse baile todo pra eu poder falar de não-coisas. Resolvi escrever sobre isso por causa do primeiro e inesperado comentário que recebi aqui, no post anterior.

Vejamos.

Quando a arte concreta chegou por aqui, é claaaaro que puseram a mão e o negócio começou a feder. Surgiram grupos concretistas no Rio e em São Paulo, e as briguinhas bairristas começaram. Um cara do Rio, então chamado Ferreira Gullar (1930-), liderou o bando dele e, depois de um tempo, resolveram acabar com a brincadeira, e fecharam o seu clubinho no que chamaram de Movimento Neoconcreto. Até manifesto eles tiveram, olha que bonitinho.

No comecinho do documento já tacavam na cara que a “tomada de posição neoconcreta" se fazia necessária "particularmente em face da arte concreta levada a uma perigosa exacerbação racionalista". Oh, paulistas, como vocês eram maus.

Ferreira Gullar é poeta e crítico de arte, antes de tudo, e como todo bom crítico, devia viver no mundo da lua. Em uma de suas viagens na maionese, pensou nos não-objetos:

A expressão não-objeto não pretende designar um objeto negativo ou qualquer coisa que seja o oposto dos objetos materiais com propriedades exatamente contrárias desses objetos. O não-objeto não é um antiobjeto mas um objeto especial em que se pretende realizada a síntese de experiências sensoriais e mentais: um corpo transparente ao conhecimento fenomenológico, integralmente perceptível, que se dá à percepção sem deixar resto. Uma pura aparência.

Bem simples, né? Não.

Não-objetos são coisas gritantes, estranhas, feitas pra pegar a percepção do espectador, dar um nó nela e mandar nunca mais xingar a mãe de gorda. Não existe racionalidade aparente num não-objeto. Ele é todo percebido no inconsciente (daí a viagem de orégano e o “que se dá à percepção sem deixar resto”). Ele toca o espectador, provoca, incomoda, porque o lado racional do infeliz tenta encaixar aquilo numa concepção da realidade de alguma maneira e não consegue. Transcende a ideia de pintura (pois se refere especificamente a ela), transformando-a em alguma coisa, não na pintura de alguma coisa.

Resumindo, não-objetos poderiam se chamar objetos-Gaga: aquilo não deveria estar ali, não fui eu quem fez, não sei de onde veio e não sei onde é que vou enfiar sem que junte moscas e levante suspeitas.

Alguma não-dúvida?